Biografia de Irene Lisboa
Passaram, a 15 de Dezembro de 1992, os primeiros 100 anos sobre
o nascimento de Irene Lisboa. O seu destino literário é, entre os destinos
literários infelizes, um dos mais marcados pelo infortúnio e pela injustiça.
Escritora de primeiríssima água, como reconheceram os homens que a fundo sabiam
do ofício de escrever (José Rodrigues Migueis, Gomes Ferreira, João Gaspar
Simões), a obra literária de Irene Lisboa não gozou nunca do favor do público.
Os seus livros escoavam-se lentamente, quando não jaziam invendáveis a atulhar
os armazéns dos textos rejeitados. Pior trajecto, se possível, veio a ter a sua
obra pedagógica, quase de todo ignorada ainda hoje, dispersa pelas páginas
esquecidas de jornais e revistas, ou reduzida a opúsculos que as pequenas
tiragens iniciais transformaram em coisas raras, não falando já de escritos
inéditos do seu espólio.
É certo que as pesquisas bibliográficas, pacientes e metódicas
de Moreirinhas Pinheiro estão, de há uns tempos para cá, a contrariar um exílio
tão longo quanto imerecido. Apesar disso que é muitíssimo, há ainda muito
caminho a percorrer para que o testemunho de Irene chegue até aos professores
portugueses, aos quais tem tanto ainda para dizer.
Diplomada pela Escola Normal Primária, Irene Lisboa exerceu a
profissão na capital até ao momento em que, juntamente com a sua colega e amiga
Ilda Moreira, aceita o desafio de reger classes de ensino infantil criadas nas
escolas oficiais do grau de que eram titular. O alto mérito do seu trabalho não
tarda a ser reconhecido. As suas classes infantis são visitadas por estudantes e
professores da Escola Normal, passando a servir como centros de estágio de que
Irene Lisboa era orientadora. Ela própria, de resto, adquiriria o título de
educadora mediante a apresentação aos exames finais do curso.
Em seguida vai para Genebra, mercê de uma bolsa do Instituto de
Alta Cultura, realizando estudos de ciências da educação no Instituto
Jean-Jacques Rousseau com Claparède e Jean-Piaget, entre outros. Visita
instituições educativas na Bélgica, ligadas à orientação de Decroly, e jardins
de infância em Paris. É um período difícil da sua vida pessoal, devido às
dificuldades de adaptação às elevadas exigências científicas dos meios
universitários onde estudava e ao seu próprio isolamento em país estrangeiro,
mas é também um período em extremo enriquecedor. Teorias educativas expostas nos
livros ou práticas pedagógicas directamente observadas, tudo isso era objecto de
uma leitura crítica de que a experiência docente e a fina sensibilidade
intelectual de Irene eram o seguro critério. Os seus relatórios, publicados pelo
Instituto financiador, de uma parte dos seus estudos no estrangeiro, constituem
do melhor que nos foi dado ler até hoje acerca das instituições visitadas e das
bases doutrinais em que se fundavam.
A etapa seguinte na vida pedagógica de Irene Lisboa tem a ver
com a sua entrada na Inspecção, no âmbito da qual fez parte de um sector
expressamente consagrado ao apoio pedagógico aos professores em exercício. O
programa de tal departamento desenhado por Irene Lisboa, reformulava de alto a
baixo as funções de um órgão estatal até aí consagrado exclusivamente ao
controlo ideológico, administrativo e disciplinar dos docentes.
Arredada da inspecção pouco tempo depois de nela ter
ingressado, Irene Lisboa é colocada na secretaria do Instituto de Alta Cultura
até que é convidada a aceitar um lugar na Escola do Magistério de Braga ou a
pedir a aposentação. Opta por este caminho, renunciando então a qualquer
intervenção a nível oficial.
Restavam-lhe a imprensa, o livro, a conferência. Grande parte
das suas intervenções tem, precisamente, esses suportes, mas convém não esquecer
que o controlo censório exercido pela ditadura salazarista sobre a expressão
pública do pensamento não lhe permitiu certamente a transmissão das suas
opiniões com toda a claridade.
Irene Lisboa é decerto um dos expoentes mais brilhantes de um
grupo de educadores e professores portugueses que se tornaram responsáveis pela
difusão das teorias da educação nova e da escola activa. A influência de
Claparède (a própria ideia de "escola atraente" é em parte claparediana) e de
outros teoristas está bem longe, porém, de ser fruto de mera informação
livresca, como é o caso de outros pedagogos que não tinham experiência lectiva
ou não a tinham ao nível primário e infantil e que, todavia, deixaram várias
obras repletas de conceitos e ideias. O caso de Irene é completamente diverso.
Nela as teorias passavam pelo filtro da sua própria experiência pessoal, uma
experiência que a inteligência, a finura sentimental e a ardência do entusiasmo
pelo trabalho educativo tornavam exigente, sensata e operativamente crítica. A
sua enorme originalidade não reside, pois, na produção doutrinal mas sim na
reiluminação desta pela intuição intelectual vivida.
Professor Doutor Rogério Fernandes
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