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26-02-2017
 
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Biografia de Irene Lisboa

Passaram, a 15 de Dezembro de 1992, os primeiros 100 anos sobre o nascimento de Irene Lisboa. O seu destino literário é, entre os destinos literários infelizes, um dos mais marcados pelo infortúnio e pela injustiça. Escritora de primeiríssima água, como reconheceram os homens que a fundo sabiam do ofício de escrever (José Rodrigues Migueis, Gomes Ferreira, João Gaspar Simões), a obra literária de Irene Lisboa não gozou nunca do favor do público. Os seus livros escoavam-se lentamente, quando não jaziam invendáveis a atulhar os armazéns dos textos rejeitados. Pior trajecto, se possível, veio a ter a sua obra pedagógica, quase de todo ignorada ainda hoje, dispersa pelas páginas esquecidas de jornais e revistas, ou reduzida a opúsculos que as pequenas tiragens iniciais transformaram em coisas raras, não falando já de escritos inéditos do seu espólio.

É certo que as pesquisas bibliográficas, pacientes e metódicas de Moreirinhas Pinheiro estão, de há uns tempos para cá, a contrariar um exílio tão longo quanto imerecido. Apesar disso que é muitíssimo, há ainda muito caminho a percorrer para que o testemunho de Irene chegue até aos professores portugueses, aos quais tem tanto ainda para dizer.

Diplomada pela Escola Normal Primária, Irene Lisboa exerceu a profissão na capital até ao momento em que, juntamente com a sua colega e amiga Ilda Moreira, aceita o desafio de reger classes de ensino infantil criadas nas escolas oficiais do grau de que eram titular. O alto mérito do seu trabalho não tarda a ser reconhecido. As suas classes infantis são visitadas por estudantes e professores da Escola Normal, passando a servir como centros de estágio de que Irene Lisboa era orientadora. Ela própria, de resto, adquiriria o título de educadora mediante a apresentação aos exames finais do curso.

Em seguida vai para Genebra, mercê de uma bolsa do Instituto de Alta Cultura, realizando estudos de ciências da educação no Instituto Jean-Jacques Rousseau com Claparède e Jean-Piaget, entre outros. Visita instituições educativas na Bélgica, ligadas à orientação de Decroly, e jardins de infância em Paris. É um período difícil da sua vida pessoal, devido às dificuldades de adaptação às elevadas exigências científicas dos meios universitários onde estudava e ao seu próprio isolamento em país estrangeiro, mas é também um período em extremo enriquecedor. Teorias educativas expostas nos livros ou práticas pedagógicas directamente observadas, tudo isso era objecto de uma leitura crítica de que a experiência docente e a fina sensibilidade intelectual de Irene eram o seguro critério. Os seus relatórios, publicados pelo Instituto financiador, de uma parte dos seus estudos no estrangeiro, constituem do melhor que nos foi dado ler até hoje acerca das instituições visitadas e das bases doutrinais em que se fundavam.

A etapa seguinte na vida pedagógica de Irene Lisboa tem a ver com a sua entrada na Inspecção, no âmbito da qual fez parte de um sector expressamente consagrado ao apoio pedagógico aos professores em exercício. O programa de tal departamento desenhado por Irene Lisboa, reformulava de alto a baixo as funções de um órgão estatal até aí consagrado exclusivamente ao controlo ideológico, administrativo e disciplinar dos docentes.

Arredada da inspecção pouco tempo depois de nela ter ingressado, Irene Lisboa é colocada na secretaria do Instituto de Alta Cultura até que é convidada a aceitar um lugar na Escola do Magistério de Braga ou a pedir a aposentação. Opta por este caminho, renunciando então a qualquer intervenção a nível oficial.

Restavam-lhe a imprensa, o livro, a conferência. Grande parte das suas intervenções tem, precisamente, esses suportes, mas convém não esquecer que o controlo censório exercido pela ditadura salazarista sobre a expressão pública do pensamento não lhe permitiu certamente a transmissão das suas opiniões com toda a claridade.

Irene Lisboa é decerto um dos expoentes mais brilhantes de um grupo de educadores e professores portugueses que se tornaram responsáveis pela difusão das teorias da educação nova e da escola activa. A influência de Claparède (a própria ideia de "escola atraente" é em parte claparediana) e de outros teoristas está bem longe, porém, de ser fruto de mera informação livresca, como é o caso de outros pedagogos que não tinham experiência lectiva ou não a tinham ao nível primário e infantil e que, todavia, deixaram várias obras repletas de conceitos e ideias. O caso de Irene é completamente diverso. Nela as teorias passavam pelo filtro da sua própria experiência pessoal, uma experiência que a inteligência, a finura sentimental e a ardência do entusiasmo pelo trabalho educativo tornavam exigente, sensata e operativamente crítica. A sua enorme originalidade não reside, pois, na produção doutrinal mas sim na reiluminação desta pela intuição intelectual vivida.

Professor Doutor Rogério Fernandes

 

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